Procura-se um Beatle para a sua vida criativa
Embora já soubesse da existência deles desde bebê, foi somente entre 1999 e 2000 que fui devidamente “apresentado” aos Beatles. O culpado foi o meu compadre Juliano Nogueira, que me prescreveu uma dieta personalizada a partir do meu estilo musical:
– Comece com Rubber Soul e Revolver. Depois que ouvir cada CD três vezes a gente conversa.
Ele estava certo. Foi fulminante. Dali em diante, mudou realmente a minha vida. Um dos pontos que me chamava a atenção era a autoria da imensa maioria das músicas, que tinha a assinatura Lennon & McCartney.
Pensava: como dois caras conseguiam compor essas músicas tão memoráveis e em um volume tão expressivo? Para mim, havia algo além do talento inequívoco de John & Paul. Existia uma sinergia entre os músicos, que permitia que, juntos, eles se tornassem mais do que dois. A obra criada foi imortalizada a partir da dedicação colaborativa e criativa dos dois jovens de Liverpool. Em áreas distintas, do futebol às artes, várias parcerias se notabilizaram e mostraram que uma boa parceria é capaz de ganhar assinatura própria. Romário e Bebeto, Tim Burton e Johnny Depp, Roberto e Erasmo, Luis Fernando Guimarães e Fernanda Torres, entre os inúmeras que conhecemos.
E na publicidade? Qual o papel das duplas?
Na publicidade, o formato de dupla de criação se tornou um clássico. Chamamos de redator(a) quem tem a incumbência prioritária de redigir os textos verbais. E de diretor(a) de arte quem se responsabiliza pela concepção imagética. Em tese, a distribuição de papeis é essa, contudo, na correria do dia a dia, ambos têm autonomia de avançar no campo do outro com o intuito de gerar novas ideias.
Eu sempre fui um privilegiado em relação às parcerias “cascas de bala” no processo de criação. Se somarmos o meu período em que fui redator publicitário com o período como diretor de criação, tive mais de 9 anos de colaboração contínua com a mesma pessoa, o fera designer Genison Kobe. Pelo Bando de Conga, juntamente com Juliano Nogueira (o mesmo que trouxe Beatles em doses manipuladas) compomos uma penca de músicas para nossa banda que se caracterizava por misturar rock e humor. No Nadaver (jornal, revista e blog de humor) trabalhei com Alexandre Affonso por mais de 15 anos.

Penso que o papel de cada um como parte de uma dupla não pode ser meramente burocrático. Quando trabalhamos em parceria é sempre importante nos conscientizarmos que somos o primeiro “filtro” para uma ideia que está em vias de ser concebida. Quando estão bem afinados é como poder contar com o repertório cultural do colega para ampliar a forma de pensar que, inevitavelmente, vai gerar soluções inesperadas.
À medida que vão ganhando entrosamento e afinidade, a mágica começa a se tornar mais incrível. Tão logo percebem que a concepção de uma boa ideia é mais importante que a autoria individual, cada participante tenta elevar a criação a um novo nível. Além de qualificar as ideias que são apresentadas, devem atuar como um rigoroso curador dos insights sugeridos. Vai por mim: em muitas situações, a aprovação do “parça” é mais prazerosa e celebrada que a do chefe.
Uma boa dupla é como um jogo de frescobol cujo objetivo é sustentar uma bola por mais tempo, ou seja, lapidar uma grande ideia por mais tempo sem deixá-la cair na mesmice.
De acordo com Steven Johnson, autor do livro De onde vem as boas ideias?, no período renascentista, intelectuais se encontravam em cafés a fim de debaterem teses de maneira eloquente e apaixonada. Esses ambientes vivos e pulsantes permitiam a circulação do livre pensar, onde ideias eram testadas e questionadas à exaustão.

Esse cenário se assemelha ao encontrado em empresas, e, sobretudo, agências de publicidade. Nelas, equipes se reúnem durante suas tempestades de ideias, com o intuito de extraírem soluções que fujam do óbvio e colaborem para a resolução de algum problema. Eu, particularmente, sempre gostei das reuniões de brainstorm por permitirem que pensássemos em possibilidades que vão além da primeira página.
Alto lá!
Mas há uma ressalva. Após a pandemia da Covid, o modelo de trabalho home-office ganhou força, permitindo que possamos executar nossas tarefas de forma remota. Aprecio os benefícios, porém, exige-se uma disciplina muito maior das duplas criativas em seus brainstorms para continuarem focados nos desafios propostos pelo briefing. As abas do navegador e as conversas paralelas no WhatsApp são tentações que podem desconcentrar os participantes em um clique.
E você? Já encontrou o seu BDF (Best Dupla Forever)? Se sim, parabéns! Agora se você ainda não encontrou a sua parceria dos sonhos, à la Lennon ou McCartney, Let it Be. A busca pode ser até uma The Long and Winding Road, mas quando topar com essa pessoa, aí você terá a garantia que ela Come Together com o seu talento e que sempre te dará um Help a cada nova missão criativa.
E aí, gostou?
Então coloque nos comentários quem é a sua BDF (Best Dupla Forever) e demonstre sua gratidão por tantas ideias porretas criadas em parceria.
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Adorei a forma como você conectou os Beatles às duplas criativas da publicidade. Ficou leve e envolvente, e dá pra sentir o quanto a parceria pode realmente multiplicar ideias e gerar algo maior do que cada um faria sozinho. Fiquei pensando como seria legal também trazer para a conversa como essas duplas se reinventam hoje, num cenário cheio de inteligência artificial e novas tecnologias que, ao mesmo tempo, somam e desafiam esse modelo. Seu texto faz a gente refletir sobre a força das parcerias, seja na música, na arte ou na comunicação do dia a dia. Por enquanto eu não tenho minha BDF hahaha
obrigado, querido Bona, pelo comentário cheio de reflexões! Muito obrigado. Abraços
Minha dupla dos sonhos é Giancarlo Guizzardi. Parceiro em tudo na vida, inclusive na produção de nossas obras primas: dois filhos maravilhosos! Gian & Renata são dupla de trabalho há mais de 20 anos, realizando pesquisa científica em Sistemas de Informação e Inteligência Artificial. Vida longa pra esta dupla! Como você, Victor, já tive outras duplas ao longo caminho. Lembro com carinho também de Anna Perini (FBK, Italy) e Vitor Souza (UFES). O trabalho com o outro é sempre muito enriquecedor e nos ensina demais!!