O brilho de um assobio

– Parabéns. Você está praticamente aprovado na seleção para guarda-vidas da praia da Xulipa de Fora. Seu currículo é impecável, Olívio.

– Muito obrigado. Fico muito feliz com essa conquista.

– Só falta uma coisinha boba. O edital prevê uma prova surpresa durante este momento da entrevista. Mas tenho certeza de que o senhor vai superar sem nenhuma dificuldade.

– Não sei exatamente o que vem pela frente, mas estou preparado.

O responsável pela seleção dos guarda-vidas assentiu com a cabeça.

– Ótimo. Vamos prosseguir. Para conquistar a vaga, basta assobiar com os dois dedos da mão, utilizando o indicador e o mínimo, formando uma espécie de garfo banguela. Isso permite que o sibilo alcance uma distância maior e que, consequentemente, pode ajudar a salvar mais banhistas.

Olívio ficou em silêncio. Não porque estivesse nervoso. Nem porque tivesse esquecido alguma coisa. É porque ele não sabia fazer daquele jeito.

Só sabia assobiar do jeito convencional. O tradicional, aquele que a humanidade desenvolveu contraindo os lábios e a língua para emitir um nobre e canoro som.

– Algum problema, Olívio?

– Olha, senhor… eu entendo a exigência. Mas, desde cedo aprendi a assobiar do modo convencional. Simples. Básico. Sempre chamei meu cachorro e meu irmão mais novo assim, sem nenhum problema.

O responsável fez uma expressão séria.

– Senhor Olívio, quando a questão é salvar vidas, o buraco é mais embaixo. Quer dizer, o som é mais longe.

Olívio não respondeu. O responsável pela seleção continuou:

– O assobio com os dois dedos tem um alcance muito superior. Sem contar que ele não impacta as vidas marinhas. Os decibéis são mais suaves para a fauna oceânica. Já o assobio convencional costuma causar impactos ambientais mais severos, sobretudo pela grande quantidade de cuspe expelida.

Olívio não conseguia esconder a frustração.

– Mas eu conheço tantos guarda-vidas que usam apitos. Isso não basta?

– Eu entendo sua preocupação, mas a indústria dos apitos entrou em uma recessão muito complicada nos últimos anos. O plástico e o metal produzidos acabam gerando um lixo de difícil descarte. Novos tempos, caro Olívio.

Olívio então olhou para as próprias mãos.

De um lado, o indicador. Do outro, o mínimo. Entre os dois, a possibilidade de assumir uma atividade profissional que exigiu tanta dedicação e esforço físico.

Diante da incredulidade de Olívio, o responsável ponderou.

– Vamos fazer o seguinte: eu gostei muito do senhor e do seu currículo. Tenho convicção de que é o candidato adequado para a vaga. Vou lhe dar uma semana para aprender a assobiar com os dois dedos da mão. Ok? Volte na próxima segunda no mesmo horário.

– Uma semana? Para aprender a assobiar com os dois dedos?

– Isso.

– E se eu não conseguir?

– Ah. Hoje em dia isso é muito fácil. Qualquer tutorial no YouTube ou no TikTok ensina.

Olívio voltou para casa determinado. Aquela vaga seria dele.

Acessou todos os vídeos que encontrou na internet, alguns em tailandês, porque descobriu em sua busca que os tailandeses eram os maiores especialistas em assobio náutico do mundo.

Olívio treinou muito. Parou de se alimentar. Dormia pouco. Passava horas diante do espelho, tentando descobrir a posição perfeita dos dedos, o encaixe da língua diante daquele desafio.

No primeiro dia, nada.

No segundo, também nada.

No terceiro, aconteceu algo pior: desaprendeu a assobiar do jeito convencional.

O tradicional fiu-ííí desapareceu.

Olívio tentou chamar o cachorro. Nada.

Tentou assobiar para o irmão mais novo. Nada.

Entrou em pânico. Só conseguia fazer shhhhhhh em um tom de repreensão.

No quarto dia, depois de horas de treinamento, finalmente reaprendeu a assobiar como antes. Era um alívio.

Mas ainda faltavam três dias. Ele precisava encontrar um jeito de aprender a nova técnica.

No quinto dia, aconteceu o inesperado.

Olívio conseguiu assobiar com um dedo. O mindinho do lado esquerdo. Era uma evolução.

E não era um assobio qualquer. Era um silvo extraordinário, agudo, lírico, quase equinocial, capaz de atravessar distâncias que ele jamais imaginara alcançar.

Os pássaros voavam em sua direção. Cães levantavam as orelhas.

Olívio estava orgulhoso. Mas ainda não era o suficiente. Continuou treinando incessantemente.

No sexto dia, nenhuma novidade.

No sétimo, havia chegado o grande dia de reencontrar o responsável pela seleção dos guarda-vidas.

No horário e no local marcados, Olívio voltou para a sala da entrevista.

– E então, caro Olívio? Preparado?

– Médio.

–  Vamos lá então. Já estou com o marcador de decibéis.

Olívio respirou fundo e confidenciou.

–  Vou falar a verdade: eu não consegui assobiar com os dois dedos. Porém, meu assobio com um dedo está um espetáculo! Posso?

O responsável fez uma expressão de decepção.

– Não há necessidade. As regras estão bem claras no edital. Apenas será admitido aquele que passar por todos os testes e, ao fim, assobiar com os dois dedos.

– Eu peço sua atenção, senhor. Sei que tem sido muito cauteloso no processo seletivo. Deixa que eu mostre meu assobio com um dedo e verá como ele é incrível. E, a propósito, do ponto de vista ergonômico, assobiar com um dedo representa muitas vantagens em caso de emergência.

– Que tipo de emergência?

Olívio retrucou.

– Enquanto assobio, posso usar o outro dedo para tirar um chiclete grudado no céu da boca de um banhista.

O responsável franziu a testa.

– Isso não é uma emergência.

– Dependendo do chiclete…

– Caro Olívio, seu exemplo não encontra razoabilidade em nosso dia a dia.

Olívio então baixou os olhos.

– Lamento, mas terei que dispensá-lo. Você não atende aos requisitos necessários.

Olívio não se conformou.

– Por favor, senhor. Eu quero muito essa vaga. Sou uma pessoa versátil. Dedicada. O senhor mesmo disse que meu currículo era impecável. Eu sou capacitado e pronto para essa função.

O responsável olhou para ele. Pensou. Parecia procurar, dentro de si mesmo, uma última possibilidade de salvar aquele homem.

Até que teve uma ideia.

– Olívio, a questão do som com alcance longo é fundamental, mas pensei aqui em uma nova possibilidade para que você consiga ocupar essa vaga.

– Muito obrigado. Muito obrigado. O que preciso fazer?

– Olívio, você sabe fazer som de pum no sovaco?

Olívio respirou aliviado.

– Sei, sim. Sei fazer som de pum com a boca e as duas mãos fazendo pressão. Fica perfeito.

O responsável fez cara de decepção.

– E no sovaco? Sabe? Pum de boca não me interessa.

– Nunca consegui com o sovaco, mas com a boca o som fica mais alto.

– Pela última vez, sabe fazer pum com o sovaco?

– Ah, não…

Compartilhe este conteúdo ;-)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *