Não diga que a criação está perdida
Artigo publicado em maio de 2026 em ES Brasil.
Você já se viu assombrado pelo bloqueio criativo? Já sentiu que não seria capaz de criar algo novo? Eu já. E você?
Há aproximadamente uma semana, estava imerso em um processo criativo para um cliente que me encomendou slogans. Embora estivesse envolvido no projeto, não me sentia confiante. Nessas horas, o bloqueio costuma aparecer. Você pode até achar que é coisa de Maluco Beleza, mas, no meu momento de maior angústia, começou a tocar “Tente outra Vez”, de Raul Seixas, no meu Spotify. Acho que foi um sinal. Acho, não. Tenho certeza. Imediatamente, minha atenção se voltou para a letra da música. Pensei: será que Raulzito tem noção de que estou questionando a minha capacidade como redator?

Para que você acompanhe meu raciocínio, vou analisar alguns trechos dessa música sob a ótica da criação publicitária. “Tente outra vez”, lançada em 1975, é uma composição do Raul Seixas em parceria com Paulo Coelho e Marcelo Motta. A canção foi escrita em um contexto de ditadura militar, marcado pela censura aos artistas que se insurgiam criativamente contra ela.
Peço licença aos autores da obra para, a partir de agora, apresentar a minha interpretação. Para dar ainda mais tempero a essa leitura, faço um convite: sempre que aparecer o termo “canção”, entenda-o como “criação”.
Vamos lá. No início, Raul canta:
– Veja, Não diga que canção (criação) está perdida. Tenha fé em Deus. Tenha fé na vida. Tente outra vez.
Quando você estiver diante de um grande desafio criativo e perceber que as ideias iniciais não te convenceram, lembre-se de que a primeira ideia raramente é a melhor solução. O processo criativo exige resistência e perseverança para alcançar caminhos menos óbvios. Se o resultado ainda parece previsível, faça como a famosa peixinha do cinema: continue a nadar.
– Beba. Pois a água viva ainda tá na fonte. Você tem dois pés para cruzar a ponte. Nada acabou.
Esse trecho destaca a importância de hidratarmos com frequência o nosso repertório cultural. É por meio dele que podemos pensar em ideias originais. Essa bagagem é constituída a partir das nossas experiências e de tudo aquilo que consumimos como produto cultural (livros, séries, cinema, HQs, entre outros). Não se contente com o mínimo. Beba de outras fontes. Desafie-se. Busque mais dados e informações para que consiga novos cenários.
– Tente. Levante sua mão sedenta e recomece a andar. Não pense que a cabeça aguenta se você parar.
O abatimento diante de uma ideia não aceita é compreensível. As reprovações ocorrem mesmo. Ponto. O verso sugere que o pior a fazer é desistir e ficar remoendo aquele passageiro insucesso. Lembre-se: ideia é só ideia. A vida é muito maior que um job. Respire, dê um F5 mental e retome o processo tão logo se sinta bem. Novos insights estão por vir. E você irá celebrá-los.
– Há uma voz que canta, há uma voz que dança. Uma voz que gira (gira) bailando no ar.
Essa voz que canta e dança pode ser entendida como o seu talento. A capacidade de pensar de forma transversal é que te faz único no ofício criativo. Seu talento é aquela chama que faz de você uma pessoa inquieta diante de situações em que a maioria das pessoas apenas se conforma e abaixa a cabeça.
– Queira. Basta ser sincero e desejar profundo. Você será capaz de sacudir o mundo. Vai, tente outra vez.
Ninguém nunca te disse que trafegar pela via da criatividade seria um caminho fácil e de puro prazer. É preciso coragem e pimenta para romper com o estabelecido, com as ideias requentadas, fruto do mais do mesmo. Você só precisa de uma oportunidade para provocar o UAU da sociedade. Vai lá: mais cinco minutos e você pode sacudir o mundo. Não há refação que te impeça de brilhar.
– Tente. E não diga que a vitória está perdida. Se é de batalhas que se vive a vida. Tente outra vez.
Uma reprovação não te define. O bloqueio faz parte do processo. E é justamente essa trajetória de tentativas que constrói o criativo que você está se tornando. As peças não aprovadas são fundamentais para mantê-lo sempre com um pezinho no chão e com a noção plena de sua vulnerabilidade. Porém, tenha em mente: seus colegas o reconhecem como criativo. Seu portfólio justifica isso. Pense em cada novo job como se fosse o último. Satisfaça o cliente, mas, principalmente, a você mesmo.
Sei bem que esse texto tem um caráter imaginativo e, admito certa presunção em associar a letra de uma música tão incrível aos percalços de quem vive e convive com as dores e os amores da criatividade. Ainda assim, penso que vale a reflexão. Não estamos sozinhos nessa aventura em busca da ideia perfeita. No fim das contas, toda criação tem seu início, fim e meio.
Quando colocamos nossa mente no estado de metamorfose ambulante conseguimos nos livrar de vez dos bloqueios que nos impedem de sermos criativos. Se até Raul Seixas, um genial cowboy fora da lei, enfrentou dificuldades para expor suas ideias, quem somos nós para não tentarmos outra vez?