Dor de Cotovelo

Dor de Cotovelo

Agora, sim, o ano começou de verdade. E, com ele, voltam as memórias das viagens e dos pequenos traumas que elas trazem. Todo o escasso dinheirinho a mais que ganho vai para a caixinha da futura viagem. Tenho convicção de que nunca me tornarei uma pessoa rica: gastaria tudo para conhecer novos locais. Ah, mas e se eu ganhasse na Mega-Sena acumulada? Torraria tudo. Sou capaz de criar destinos improváveis a ponto de reinventar a geografia mundial. Invento um cruzeiro de Vitória-ES a Belo Horizonte-MG, mesmo que não tenha mar para navegar. Mas, como fantasiosamente me tornei um milionário, queimo todo o dim-dim, compro a embarcação e crio um mar ou um rio, sei lá, algo para fazer esse trajeto. Ponho fim à fortuna, mas me torno um desbravador.

Para não dizer que tudo são flores em uma viagem, há um detalhe pequenininho que me incomoda bastante. Não é a turbulência, o receio da bagagem ser extraviada nem a desarrumação das malas. A pior parte para mim é, sem dúvida, a disputa pelo apoio de cotovelo que fica entre os assentos. É um sofrimento, principalmente, para quem fica encaixotado no meio das poltronas.

Nessas horas, costuma valer a lei do Velho Oeste: chegou primeiro, instala o cotovelo e demarca o território. Quem está ao lado tenta maliciosamente apoiar no cantinho que sobra, mas, assim que aquele que chegou na frente percebe, logo se impõe, enrijecendo ainda mais o braço, deixando claro que não abre mão dos espaços conquistados. A viagem se torna quase uma disputa de War.

Já viajei ao lado de uma senhora que, para não perder o apoio, fingiu que estava dormindo. Ficou o tempo todo com o rosto virado para o lado contrário de onde estava o braço demarcador. Era tão dissimulada que, se existisse uma categoria “Pior Soneca” no Oscar, a estatueta teria dona. No momento de servir o lanchinho, na maior cara de pau, abriu uma frestinha do olho esquerdo, pegou o amendoim e o suco com a mão contrária, porém manteve impassível o cotovelo direito, que estava em disputa comigo.

Eu até tentei o golpe de usar da minha simpatia, comentando sobre o reduzido espaço para as pernas no voo. Porém, ela me deu uma invertida de forma seca:

Da próxima vez, compre um lugar nas primeiras poltronas.

O recado dela era claro: o apoio de braço é meu.  

Para que essa crônica não sirva para que eu seja visto como um injustiçado, é importante informar aos leitores que também já aconteceu comigo a situação inversa. Foi assim: tão logo o embarque foi liberado, corri para ocupar minha poltrona e, mesmo faltando 45 minutos para o avião decolar, ocupei o apoio.

Já em vias de decolar, eis que se assentou na poltrona da esquerda um senhor bonachão e bem conversador. Durante o voo, notei que ele tentava disfarçadamente apoiar o braço. Porém, como um zagueirão de várzea, não dei campo a ele. Evitei estabelecer contato visual. Meti o fone no ouvido, mesmo que não estivesse conectado a nenhum dispositivo. Esse senhor tentou me seduzir contando histórias dos netos. Golpe baixíssimo, sobretudo para uma pessoa como eu que adora ouvir sobre as peripécias infantis. Eu tentei resistir, me mantendo no meu mundinho solo. Mas o vizinho era dos bons! Quando percebi, estávamos rindo juntos e mostrando fotos da família no celular. Cada netinho lindo ele tem. Que fofura.

Quando despertei daquele canto das sereias, o cordial passageiro já ocupava diplomaticamente metade do apoio do cotovelo. Crápula! Os dois cotovelos rivais estavam a milímetros de distância. A um passo para invadirem a fronteira.

Eu persistia, já com cãibras e dormência nos ombros. Admito que ele dominava a arte do cotovelo com ginga moleque, pois, ao perceber que eu estava começando a fraquejar, o senhor fanfarrão arregaçou a manga da camisa do braço em disputa no apoio e nesse momento surgiram, do nada, PELOS. Muitos PELOS! Comecei a sentir um roça-roça desagradável que violava a já combalida tranquilidade do voo. Lutei, tirei forças de onde poderia. Foram longos sete segundos de agressão capilar. Quase um Faroeste Caboclo em câmera lenta.  Aqueles pelos eriçados repeliram o meu resiliente braço, nesse instante, bem avariado. E enojado. Ofereci toda a minha bravura àquele voo.  Derrotado e resignado, cedi o apoio. Ele venceu. Esse episódio, embora traumático, não impediu que o restante do passeio fosse prazeroso e com boa conversa, com direito a mais fotos de familiares fofos.

Depois de tantas disputas territoriais em ônibus e aviões, em que cada movimento de cotovelo significava avanço ou retrocesso por um naco de apoio, aprendi algo valioso: não importa o destino. Viaje sempre de manga comprida.

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